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25 de outubro de 2012




‎"Gosto de pessoas, casas, livros e viagens por esta ordem. Também gosto do silêncio, do amanhecer e do entardecer. De ouvir tocar piano, de ficar à conversa, do barulho do mar, da voz dos que amo, de coisas e memórias que guardo para sempre. Porque certas coisas nunca se esquecem."

19 de outubro de 2012

rip Manuel António Pina

Regresso devagar ao teu 
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

25 de agosto de 2012

porque gostamos das mulheres

"Julgo, pura e simplesmente, que o sexo acompanhado de intimidade é melhor do que sem ela. (...) O meu corpo está profundamente ligado ao da minha mulher. Possuo, de facto, dois corpos, e a minha vida é dupla. Embora pareça não ter cérebro, como uma cobaia, o meu corpo permanece apaixonado pelo corpo da minha mulher. A minha necessidade de intimidade com quem vivo vai muito mais além da vida sexual. Uns amedrontam-se da vida de casal exactamente pela perspectiva de ver o outro nas mais sórdidas situações. Mas o meu amor nutre-se precisamente por isso. Aprecio ir às compras com ela, tomar café, olhá-la na banheira, tagarelarmos sobre ovnis. Gosto de olhá-la como come,e como estende a roupa. Quando fazemos amor, a nossa intimidade é algo muito preciosa e o nosso prazer depende dela totalmente. Na realidade, fazem amor dois corpos que se conhecem infinitamente, mas que nunca se saturam em redescobrir-se. Sei o que fará em cada instante, embora sempre me surpreenda. Quanto melhor conheço a sua pele, os tendões, a cútis, os gestos, as palavras, maior e mais desesperada é a minha curiosidade. A minha intimidade com o meu outro corpo é permanente; quando durmo, sei, em sonhos, que está junto a mim, mas no momento do amor físico a intimidade torna-se total. Então aí, já não distingo o olhar do tacto, a ternura da violência, a felicidade do sofrimento. Quero-a somente para mim, pois só eu a conheço. (...) A nossa intimidade, em casa, na nossa cama, não nos extenua, antes porém nos frutifica a alegria erótica. (...) Na verdade, só atinges a maturidade sexual quando começas a viver um estranho solipsismo a dois que te faz afirmar: em todo o universo não existem senão dois seres que verdadeiramente fazem amor: eu e a minha amada."

14 de agosto de 2012


"Após uma viagem longa, após semanas ou meses, quando se chega, assim que se põe um pé fora do aeroporto, estranha-se as cores, estranha-se a espessura do ar, estranha-se que, de repente, toda a gente fale em português. Os taxistas falam em português, a rádio passa publicidade em português, os cartazes ao longo do caminho anunciam qualquer coisa em português. Mas, nos passeios, as pessoas avançam sem reparar em nada, fazem o seu caminho, seguem sem encontrar novidades. Nos semáforos, os motoristas dos outros carros estão mal-humorados, ignoram completamente o sol de junho, que não é demasiado quente, ignoram a claridade e a temperatura perfeita.

A casa está exactamente como ficou. Se houve uma última caneca que ficou por lavar no lava-loiças, continua lá, suspensa, pronta a retomar o movimento do mundo. Então, antes de desfazer a mala, apetece sentar no sofá, senti-lo. Nos próximos dias, haverá prazeres simples para apreciar: assistir a matinés de fim de semana na televisão, tomar duches quentes com champô de tamanho normal, comer certas comidas, não necessariamente bacalhau. Essa fase pode demorar bastante tempo. Se houver disponibilidade, pode demorar vários dias. A mala pode ficar por desfazer durante mais de uma semana.

Então, a casa é mesmo casa. O corpo recupera segurança, como se a segurança fosse gasolina, como se a casa fosse uma bomba de gasolina e como se tivéssemos um depósito interno para atestar de segurança. A casa é como aquele lugar em que não podíamos ser apanhados quando brincávamos à apanhada. A casa é como um abraço.

Esse período pode ser muito reconfortante e melancólico. Reconfortante porque todas as lembranças e cicatrizes assentam, são processadas pela memória, narradas a nós próprios devagarinho, encontram um lugar na organização da cabeça. Melancólico exactamente pelo mesmo motivo. Esse é um período em que se contempla um tempo que, ali, se sabe com muita certeza que não voltará. Saber que aquilo que foi bom existiu é, também, saber que já não existe.

Sem roaming, é possível telefonar aos amigos com especial facilidade. Quando atendem e quando têm conseguem encontrar uma hora nas suas agendas cheias, marca-se um encontro numa esplanada ou à frente de uma paisagem simpática. Cresce então o entusiasmo para lhes contar como foi nadar ou andar de bicicleta numa cidade tão distante, entre imagens tão incríveis, entre perfumes e fedores. Eles ouvem, dizem: ãh, ãh. Reparam em qualquer coisa que está à acontecer atrás de nós, uma criança, um cão, um pombo. E o entusiasmo vai esmorecendo. Quando morreu completamente e se misturou com a paisagem, são esses amigos que se entusiasmam a perguntar: sabes com quem é que o Manel anda? E começam a falar dos lugares onde se costuma ir. Todo o interesse que colocam nos detalhes dessa descrição contrasta com o desinteresse com que se ouve. E há uma voz interior, por baixo dessa, a ditar pensamentos e a anotar tudo isso. Nesse preciso momento, fica claro que mudámos enquanto pessoa. Foi a viagem que nos mudou."

7 de agosto de 2012

a bagagem do viajante

"(...) É uma sensação agradável esta de ter o corpo um pouco áspero de sal, a antegozar o duche que nos espera em casa. (...) O momento é tão perfeito que podemos falar de coisas importantes sem que as vozes tenham de subir, e nenhum de nós pensa em ganhar no diálogo e ter mais razão do que a pode ter um comum ser humano que respeite a verdade. Além disso, é verão e, como eu disse, estamos na fronteira do ar livre. (...) Temos a pele doirada e sorrimos muito. (...) Voltamos a conversar, dizemos coisas vagas e lentas, inteligentes, numa plenitude de bem-aventurados. O sol, que desceu um pouco mais, desliza nos copos, acende fogos no vidro e dá ao vinho uma transparência de fonte viva. Sentimo-nos bem, com o restaurante só para nós, rodeados de madeiras fulvas e toalhas coloridas. (...)"

31 de julho de 2012

"Uma das melhores coisas do mundo é ficar sozinho. Você, no seu canto, ouvindo suas músicas preferidas no volume que quiser. Você, com a casa arrumada ou bagunçada. Você, com uma roupa linda ou vestida de mendiga. Você, de salto alto ou pé no chão. Tanto faz, o importante é estar com você."

13 de julho de 2012

"Antigamente crescia-se com casas cheias e sabia-se mais sobre tolerância, convivência e partilha."

26 de junho de 2012

"É domingo. Abro, lento, a porta da rua para apanhar o jornal. Acto heróico esse de cruzar a fronteira entre a casa e a rua. O jornal é o mensageiro entre esses dois mundos."

12 de junho de 2012

"As casas em que vivemos não são muito diferentes das relações que temos: elas têm de nos servir, como nos servem umas calças, nem demasiado grandes, nem demasiado pequenas, nem muito frias nem sufocantes de tão quentes, nem escuras nem demasiado claras. Tal como uma relação se constrói, uma casa também se vai fazendo aos poucos, e todos os pormenores contam, desde as cortinas aos candeeiros, passando pelas almofadas e pelas toalhas de mesa. (...) As nossas casas são as nossas radiografias e tomamos conta delas da mesma forma que gerimos as nossas relações amorosas; quem é exigente, autoritário e disciplinador consigo mesmo e com os outros, tem a casa impecável. Quem vive no caos e na confusão é vago e cultiva o deixa andar nas relações."

18 de maio de 2012

um dia atrás do outro

"Partilham a casa, a família, as inquietações, as alegrias e quase todas as horas do dia. Cúmplices até nos silêncios, adoram ficar em casa a ler, a conversar ou, simplesmente, a cozinhar."

17 de maio de 2012

a bagagem do viajante

"(...) o sol prendera-me na praia, envolvera-me de torpor, e entre o banho e a areia se tinham escoado as horas. É uma sensação agradável esta de ter o corpo um pouco áspero de sal, a antegozar o duche que nos espera em casa. (...) Vida boa. O momento é tão perfeito que podemos falar de coisas importantes sem que as vozes tenham de subir, e nenhum de nós pensa em ganhar no diálogo e ter mais razão do que a pode ter um comum ser humano que respeite a verdade. Além disso, é verão e, como eu disse, estamos na fronteira do ar livre. A aragem faz estremecer umas plantas cheirosas a que podemos chegar com os dedos e em volta das quais zumbem os insectos do tempo. Quebrada pela folhagem, há uma réstia de sol que se derrama pelas madeiras envernizadas da janela. Vida boa. Temos a pele doirada e sorrimos muito. (...) Ah, vida boa, vida boa. (...) Voltamos a conversar, dizemos coisas vagas e lentas, inteligentes, numa plenitude de bem-aventurados. O sol, que desceu um pouco mais, desliza nos copos, acende fogos no vidro e dá ao vinho uma transparência de fonte viva. Sentimo-nos bem, com o restaurante só para nós, rodeados de madeiras fulvas e toalhas coloridas. (...)"

7 de abril de 2012

4 de feveriero de 2011

A cidade anoitece. Vislumbram-se pequenos focos de luz que, sabe, são luzes que aquecem e iluminam centenas de lares onde habitam tantas pessoas que nem consegue imaginar quantas. Conheceu a sorte de habitar no cima da colina onde se consegue regalar com uma vista citadina, e invejável. Admira a sua casa por se situar na cidade, perto de tudo, e, ao mesmo tempo, ser, também, um refúgio onde os sons da cidade não chegam num tom indecifrável. Haviam escolhido este local pela sua calmaria indiscutível e consideravam-no o seu paraíso, passasse o tempo que passasse, independentemente do estado climatérico. 
Gostava de preparar uma recepção romântica sempre que chegava a casa antes d'ele, e hoje era um desses dias. Enquanto preparava um dos pratos preferidos do seu homem para o jantar, decidiu pôr a mesa junto à lareira, iluminando a sala sem qualquer ajuda eléctrica. Adorava as refeições naquela mesa de madeira, pequena, baixa e o tapete macio a suavizar o chão. Esta sensação era uma das mais acolhedoras de que tinha memória. Isto era sentir-se em casa e bastava, apenas, que ele chegasse para que se sentisse completa, e em casa.
Sentiu-o entrar em casa, não pelo barulho do carro a regressar à garagem, nem pelo ruído habitual das chaves, da fechadura a rodar, ou da porta a abrir e a fechar, mas sentiu-o, sim, pelo cheiro. Era aquele aroma que anunciava a sua chegada. Há anos que elogiava o seu cheiro e sabia que nunca o encontraria concentrado num pequeno frasco de uma perfumaria. Era o cheiro do amor, do seu amor e, por isso, tão delicioso e único. Mais do que o perfume caro e os produtos para o cabelo era o cheiro natural que emanava que ela tanto gostava de inalar. Era sinónimo de segurança e, logicamente, de proximidade física-
Hoje, queria-o como o queria desde o primeiro momento. Correi para ele, ainda à porta de casa, e sorriu enquanto se preparava para o beijar. Todos os beijos tinham em si o fogo e o amor que sempre conheceram e nunca perderam o calor, nem com a fugacidade do tempo. Havia malícia nas curvas e contra-curvas das suas línguas. 
Não se recordava de alguma vez não o ter desejado.

6 de abril de 2012

"O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros. As tardes vão-se repetindo no terraço, onde as palavras são pequenos lugares de memória. Estou divorciada dos outros pelo tempo destas entrelinhas - longe de casa, tenho sonhos que não conto a ninguém, viro devagar a primeira página: em fevereiro, eles ainda faziam amor à sexta-feira. De manhã, ela torrava pão e espremia laranjas numa cozinha fria. Havia mais toalhas para lavar ao domingo, cabelos curtos colados teimosamente ao espelho. Às vezes, chovia e ambos liam o jornal, dentro do carro, antes de se despedirem. As vezes, repartiam sofregamente a infância, postais antigos, o silêncio - nada aconteceu entretanto. Regresso, pois, à primeira linha, à verdade que remexe entre as minhas mãos. Talvez os olhos estivessem apenas desatentos sobre o livro; talvez as histórias se repitam mesmo, como as tardes passadas no terraço, longe de casa. Aqui tenho sonhos que não conto a ninguém."

17 de março de 2012

"Sou a tua casa, a tua rua, a tua segurança, o teu destino. Sou a maçã que comes e a roupa que vestes. Sou o degrau por onde sobes, o copo por onde bebes, o teu riso e o teu choro, o teu frio e a tua lareira. (...) Sou o sítio onde descansas, a árvore que te dá sombra, o vento que contigo se comove. Sou o teu corpo, o teu espírito, o teu brilho, a tua dúvida. (...) E sou, na luz do outono, o teu olhar. (...) Os teus vinte anos. (...) Sou a tua memória, a memória da tua memória, o teu orgulho, a fecundação das tuas entranhas, a absolvição dos teus pecados. O teu amuleto e a tua humildade. Sou a tua cobardia, a tua coragem, a força com que amas. Sou os teus óculos e a tua leitura. A tua música preferida, a tua cor preferida, o teu poema preferido. Sou o que significas para mim, a ternura que desagua nos teus dedos, o tamanho das tuas pupilas antes e depois de fazer amor. Sou o que sou em ti e o que não podes ser em mim. Sou uma só coisa. E duas coisas diferentes."

13 de março de 2012


"Algumas pessoas mantém relações para se sentirem integradas na sociedade, para provarem a si mesmas que são capazes de ser amadas, para evitar a solidão, por dinheiro ou por preguiça.

(...)

Uma relação tem que servir para você se sentir 100% à vontade com outra pessoa, à vontade para concordar com ela e discordar dela, para ter sexo sem não-me-toques ou para cair no sono logo após o jantar, pregado. Uma relação tem que servir para você ter com quem ir ao cinema de mãos dadas, para ter alguém que instale o som novo, enquanto você prepara uma omelete, para ter alguém com quem viajar para um país distante, para ter alguém com quem ficar em silêncio, sem que nenhum dos dois se incomode com isso. Uma relação tem que servir para, às vezes, estimular você a se produzir, e, quase sempre, estimular você a ser do jeito que é, de cara lavada uma pessoa bonita a seu modo. Uma relação tem que servir para um e outro se sentirem amparados nas suas inquietações, para ensinar a confiar, a respeitar as diferenças que há entre as pessoas, e deve servir para fazer os dois se divertirem demais, mesmo em casa, principalmente em casa. Uma relação tem que servir para cobrir as despesas um do outro num momento de aperto, e cobrir as dores um do outro num momento de melancolia, e cobrirem o corpo um do outro, quando o cobertor cair. Uma relação tem que servir para um acompanhar o outro no médico, para um perdoar as fraquezas do outro, para um abrir a garrafa de vinho e para o outro abrir o jogo, e para os dois abrirem-se para o mundo, cientes de que o mundo não se resume aos dois."

deixei-te o sorriso em casa


"Mais tarde, mais pela noite, o que hoje me apetecia era mesmo ficar por casa, amansado e quieto, ler um bocado, se calhar arregimentar um chá ou um whisky. Logo se via."

30 de janeiro de 2012

Para nós, abraços são como regressar a casa, seja ela qual for. Tão longe quanto a vida nos obriga, sempre soubemos manter-nos perto. Somos omnipresentes. E omnipotentes.
Ninguém percebe a ânsia que me consome, a vontade que tenho de apanhar o primeiro comboio e só parar duas horas depois.
E abraçar-te com alma.

25 de julho de 2011

Eu gosto de ficar em casa, aproveitar o silêncio e meditar. Pensar e repensar nos caminhos por onde a vida gira. Vestir roupa larga e manter o cabelo desgrenhado, sem ver escova durante tempos. Apanhar algum sol durante o dia e contemplar uma noite estrelada. Ouvir uma música calma que evoque boas memórias e grandes sorrisos. Um cigarro aceso.
A saudade no peito e a minha fonte de inspiração fora da vista. Volta.

8 de julho de 2011

Como sempre, vê-lo chegar é uma alegria indescritível. Sempre se cumprimentam com um beijo apressado e a mãe direita dela a acariciar a cara dele, como um gesto de saudade. Basta esse toque de lábios, a frescura repentina da saliva do outro, o tacto a identificar a barba dele e logo reaparece o sentimento de ter chegado a casa. Basta estarem juntos e serem só um, para esquecerem a rotação que o mundo faz e quem nele habita.

20 de março de 2011


Chegas tu, Primavera, forte como o calor de Junho. Aqueces-me o corpo com uma temperatura tórrida que não se rende ao acanhamento e fazes-me sonhar, e viajar, sem ser infiel à preguiça, e ao conforto do meu lar.