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25 de outubro de 2012


"Chegou o primeiro cheiro do Outono, súbtil. E com ele o nevoeiro lânguido dos olhares, o desejo do conforto, a mudança de discos no armário, a luz tépida, os dias castanhos, a civilidade dos gestos, a infinita preguiça, o prazer do domingo, a camisola de malha, o cheiro incrível das folhas na província, as estradas vazias e a urgência do sábado de manhã, os corpos pálidos e os sorrisos discretos, a informação de trânsito, as janelas fechadas, o sabor das primeiras gotas que caem sempre na mão, as geleias e o abandono da frescura, o lugar do morto, os olhos a fechar nos fins-de-tarde no transporte público e as correrias em frente das escolas, a noite a ser noite, o amor interrompido, o sossego da casa, as montras cheias, a ausência do céu, as vozes quentes e os cobertores, a disponibilidade para os livros, o elliott smith, as tendências suicidas e o cinismo.
Agora sim, podemos ser felizes."

13 de setembro de 2012

sobre o amor

"Estar enamorado é ter na cabeça uma ideia que não nos abandona nem de dia nem de noite. É adormecer com essa imagem e voltar a encontrá-la à espera na almofada no primeiro bater da pestana."

7 de agosto de 2012

a bagagem do viajante

"Vai o ano correndo manso entre noites e dias, entre nuvens e sol, e quando mal nos precatamos, chegámos ao fim, e é natal. (...) De mais sei eu que na enfiada de abraços há sempre os que apertam e os que são apertados. De mais sei eu que a confiança é, em muitos casos, a armadilha que a nós próprios armamos, e para ela é que os outros nos empurram, sorrindo."

4 de julho de 2012

"(...) Não haverá dia em que não lembre o dia em que sorri por dentro, temi sorrir por fora afinal estava cercada por um sorriso largo, surpreso, grato, grande. Aquele sorriso não precisava de esticar os braços para me tocar, abraçar, sentir. Aquele sorriso desejava, sentia o odor da pele sem a cheirar.

Desde que os dois sorrisos se entrelaçaram em mãos dadas, que o sorriso se tornou mais sorriso, o dia mais dia, a noite mais noite, o amor mais amor. Desde que os dois sorrisos se entrelaçaram em mãos dadas que a vida se tornou mais vida. 
O sorriso sempre foi o remédio, sempre foi o consolo, o abraço na distância. Rendeu-se escancarado a tudo num todo: verdade, mentira, ilusão, devaneio. 
O sorriso foi a solução, a causa e o efeito. O sorriso Mais, muito mais sorriso. O sorriso meu, muito mais meu. O sorriso teu, muito mais teu. 
Ainda hoje sorrimos e quando o fazermos o sorriso é o remédio, a causa e o efeito. O sorriso é a razão para sorrir. Sorrir basta. Para amar basta sorrir um sorriso quente, não pensado, num dia frio que depois foi chuva."

11 de junho de 2012

"Liberdade na vida é ter um amor p'ra se prender. A gente reclama muito da dependência, mas como é maravilhosa a dependência, confiar no outro, confiar no outro a ponto de não somente repartir a memória, mas repartir as fantasias. 
(...) é talvez chegar em casa e contar seu dia e só sentir que teve um dia quando a gente conta como foi. É como se o ouvido da outra pessoa fosse os nossos olhos. Amar é uma confissão. Amar é justamente quando um sussurro funciona melhor que um grito. Amar é não ter vergonha de nossas dúvidas, é falar uma bobagem e ainda se sentir importante. É lavar louça e nunca estar sozinho. É arrumar a cama e nunca estar sozinho. É aquela vontade danada de andar de mãos dadas durante o dia e de pés dados durante a noite."

26 de maio de 2012

Cidade à noite

"Na sacada aqui de casa, fiquei parado contemplando a cidade à noite. Há muito tempo não fazia isso: contemplar. Nossa visão torna-se veloz como os meios de comunicação, e o muito que vemos é pouco mais que o nada que sabemos. Perdemos o hábito de olhar, e ver já nos basta. Mas eu estava com calor e não tinha nada de urgente com que me ocupar. Por distração, fui acabar na sacada. À noite. Vultos distantes, luzes que hesitavam, sombras sobre a Terra. Aos poucos fui perdendo o sentido do aqui, numa espécie de vertigem, como estar solto no espaço, como ter desenterrado os pés do barro em que geralmente os mantemos. E, na medida em que desaparecia qualquer ligação com a proximidade, com o entorno que nos corporifica, mas que também nos aprisiona, nesta mesma medida o agora foi perdendo sua lógica.
Desligado, por fim, de minha condição de um ser envolvido pela concretude da existência, pareceu-me poder ouvir simultaneamente cada suspiro, cada gemido produzido no interior dos milhares de casas de que se compõe a cidade. Senti que havia um pulsar de vida em cada uma das janelas que se recortavam na escuridão, que ali, onde a vista percebia apenas pequena mancha de luz, existiam sonhos e planos e desilusões e frustrações, acertos e erros, maldade e bondade, que tudo junto é a massa de que somos formados.
Perguntei-me se aqueles habitantes da Terra já teriam pensado que são apenas estafetas efêmeros de um processo muito maior do que cada um de nós, que é a história da humanidade, uma história de milhares e milhares de anos, que nos antecedeu e que nos ultrapassará.
É difícil, muito difícil, parar para refletir sobre nossa pequenez, sobre a inutilidade de grande parte do que fazemos. Aceitamos a prisão do aqui e agora e ainda achamos, cada um de nós acha, que somos o centro do universo.
Preciso voltar muitas vezes à sacada, à noite, para contemplar a cidade."

17 de maio de 2012

um dia atrás do outro

"Cem dias e cem noites passaram sobre a última madrugada vivida no pátio de luz e sombras que me há-de acompanhar até ao último dia. Cem dias e cem noites, o tempo preciso para voltar a acreditar que existe mesmo uma possibilidade de ser tão feliz ali como em qualquer lugar. Cem dias e cem noites, um tempo exacto e geométrico. O tempo que as coisas demoram a assentar. A esquecer e a lembrar. A curar e a apagar."

13 de maio de 2012

O relógio marcava a vigésima hora do dia, maio, horário de verão. O dia de trabalho acabava na cidade e a população activa desligava as máquinas cerebrais.  
Os homens libertavam-se dos apertados nós das gravatas, dirijam-se ao café e pediam uma cerveja fresca, procuravam o maço e tiravam um cigarro, recostavam-se na cadeira da esplanada e esticavam as pernas - pequenos prazeres da vida. As últimas horas do dia chegavam. O sol ainda se fazia sentir, iluminava a cidade com uma luz subtil e oferecia uma temperatura amena, suficiente para arregaçar as mangas até aos cotovelos. Depois de um dia de trabalho, de cansaço e de calor anormal nesta primavera de maio, perde-se a postura que se assume durante todo o dia, envergando fato e gravata. 
O dia torna-se, assim, fugaz e a noite chega. O silêncio torna-se rei e apenas é quebrado com o movimento rodoviário de quando em vez.

12 de maio de 2012

a linguagem secreta das raparigas


"Sentarem-se e falar, ouvirem música e falar, ficarem a pé toda a noite e falar, rirem e falar, beberem vinho e falar, comerem e falar..."

26 de abril de 2012

Somos jovens e a vida corre-nos nas veias. Vivemos os vinte: o equilíbrio harmonioso entre a responsabilidade e a irreverência da jovialidade. O futuro há-de surpreender mesmo que mil, ou mais do que mil, planos sejam traçados todas as noites antes de adormecer, quando me contorço de desejo e tu não estás. Os rascunhos que faço têm-te a ti em grande plano, desenhado com minúcia e esse futuro é certo - já alinhavamos as bases. Quanto às incertezas futuras, essas apenas dizem respeito a outras áreas da vida que não o nosso amor. A escada está lançada, só nos resta subir, degrau a degrau, a cada dia que nasce.

Hoje estamos aqui. Juntos, no presente, em espírito. Vivendo uma sintonia separada por alguns quilómetros e duas metades de cama vazias. Cuidamos do nosso amor em qualquer lado e pouco importa o que na cabeça dos outros corre. Somos apenas nós. Livres dentro do nosso próprio mundo, do nosso compromisso.

Amanhã teremos o mesmo tecto a tapar-nos da chuva. Num futuro que cremos, e queremos, próximo. Uma só cama terá ambas as metades preenchidas, cheias de vida e de calor. Seremos nós os dois, apenas nós, uma família. O acordar e o adormecer um do outro. 

I can't wait...

23 de abril de 2012

"Qualquer um pode ter, de longe em longe, a sensação de não ocupar mais do que um ponto e um instante; passar por essa sensação dia e noite, em boa verdade a todas as horas, é menos comum; é a partir dessa experiência, desse dado, que nos voltamos para o nirvana ou para o sarcasmo, ou para ambos ao mesmo tempo."

17 de abril de 2012

só enquanto se respira

"A doce luz da noite e a linguagem mágica das coisas fogem assim que a manhã acorda estremunhada e nunca mais durante o dia as encontramos."

5 de abril de 2012

M,

"Havia algo que tinha um cheiro inconfundível de alegria. De vida abraçada. De chuva quando beija a aridez. De lua quando é cheia e o céu diz estrelas. Um cheiro da paz risonha do encontro que é bom."
Tu és assim, e eu já tenho saudades.

4 de abril de 2012

"Toda a alegria da vida está fundada num retorno regular das coisas exteriores. A alternância do dia e da noite, das estações, das flores e dos frutos, e de todas as outras coisas que vêm ao nosso encontro periodicamente (...) eis os verdadeiros recursos da vida terrestre."

1 de abril de 2012


"Os homens são como café, os melhores são quentes, fortes e te mantém acordada a noite toda."

14 de março de 2012

deixei-te o sorriso em casa


"(...) a noite arrefecera e estava mesmo no ponto para enrolanços entre lençóis (...)."

13 de março de 2012

deixei-te o sorriso em casa


"Mais tarde, mais pela noite, o que hoje me apetecia era mesmo ficar por casa, amansado e quieto, ler um bocado, se calhar arregimentar um chá ou um whisky. Logo se via."

15 de janeiro de 2012

Folhas amontoam-se na secretária. Algumas lidas, tantas por ler. Muitas delas escritas, riscadas. Rabiscos sobre coisas banais, coisas a reter e coisas de nada. O cansaço faz-se sentir. A atenção esgotou-se como uma ampulheta impossível de travar. Na minha cabeça mil pensamentos correm em círculos fechados. Talvez uma noite de sono e o descanso na escuridão dissipem a carga que me pesa nos ombros.

18 de dezembro de 2011


"É claro que a noite é a melhor altura para conversar, uma vez que existe uma certa falta de fascínio nas conversas que se têm durante o dia."

10 de dezembro de 2011

A cama onde, todas as noites, em vão, me tento aquecer sozinha já foi palco de mil histórias e, sempre, tu e eu como protagonistas. Promessas de cada vez mais e momentos de prazer que param e aceleram o relógio e nos fazem perder a noção do tempo, do mundo e de tudo o que é exterior a nós.
Abraços apertados, tanto carinho nas tuas mãos macias a contornarem-me o corpo, a afagarem-me o cabelo. Beijos de arrepiar no pescoço, beijinhos de respeito colossal na testa.