Mostrar mensagens com a etiqueta Lua cheia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Lua cheia. Mostrar todas as mensagens

22 de janeiro de 2012

Voltava hoje à casa que tinha abrigado o seu casamento por seis belas e longas décadas. Agora, viúva e desgastada pela vida, em clara contagem decrescente, achava necessário um último regresso ao ninho do seu amor. Embora visivelmente debilitada, com um grau de invalidez considerável, Maria havia pedido que este último retorno fosse a sós: somente ela e as suas reminiscências. O caminho percorrido pela calçada gasta, entre o portão e a porta principal de sua casa, mostrou-se tão triste como o pousio abandalhado que outrora fora o jardim que anunciava a chegada de cada estação.
Um suspiro profundo como o oceano tomou conta dela, e da sua respiração cansada, no momento que antecedeu o rodar da chave na velha fechadura.
O aroma da casa era inconfundível e Maria penso no quão era incrível a solidez do cheiro, imune ao passar do tempo. Na cozinha cheirava a citrinos e a canela, ainda havia o peculiar cheiro da sua cadela que sempre dormia no sofá em frente à lareira e Maria sabia que se caminhasse em direcção ao escritório e ao quarto sentiria o cheiro do perfume de cada um, envolvidos e unidos num só como se representassem o cheiro uno do casal, o aroma de todo o seu amor. Gostava, desde que se lembrava, de associar odores a momentos e a pessoas - cedo tinha lido que os cheiros são o vento das pessoas, mas sabia que aquele único cheiro seria o narrador de toda a sua história de amor.
Sentiu-se tonta e temeu que lhe faltassem as forças neste confronto final com as memórias e a solidão que sentia por dormir em metade de uma cama vazia. Decidiu, como precaução, sentar-se numa cadeira à mesa da cozinha onde tanta vez se tinha regalado com os cozinhados refinados do marido.
Quando se sentiu capaz de continuar a divagação pela sua própria casa, dirigiu-se ao quarto. A porta rangeu como se fosse a passagem secreta para um mundo paralelo. Quando entrou Maria chorou copiosamente, libertando toda a emoção que a envolvia desde que entrará pelo portão decidida a enfrentar as mais belas memórias.
Tudo o que vivera, desde a sua fresca juventude até ao dia em que ficara sozinha, passou-lhe pelos olhos num ápice. O aconchego de todas as noites, a preguiça de todas as manhãs, o sexo escaldante e as conversas profundas foram episódios que, por fracções de segundos, os seus olhos reconstruíram. Sabia, sem lugar para interrogações, que tinha vivido um amor bem vivido e uma relação forte e grandiosa com as porções certas de respeito e de companheirismo, indo sempre um na defesa do outro, nem que fosse para a guerra.
Abriu gavetas, portas dos armários e caixinhas de papelão e em todos esses esconderijos havia sinais que lhe garantiam que tinha feito a escolha certa ao ter escolhido aquele homem de cabelo farto e olhos de chocolate, tantos anos antes. Na primeira gaveta da sua mesa-de-cabeceira guardava as cartas, os bilhetes e as fotografias que mais lhe tocavam e, por isso mesmo, quis reler e rever tudo com a máxima atenção. Sentou-se na cama e pegou em todos aqueles papéis já amarelados e encaracolados - eram essas as marcas do tempo que corre e nunca pára. Leu cartas das quais já tinha decorado certas passagens mas sorriu a cada sinal de pontuação.
No fundo da gaveta repousava um envelope vermelho que não tinha lugar na sua memória. Pegou nele e a ao ler as primeiras palavras da carta que trazia dentro percebeu que nunca tinha lido tais orações. A data da carta presidia a cabeça da folha e em rápidas contas percebeu que aquelas palavras haviam sido escritas escassos dias antes de o marido sair para colher laranjas no pomar e ter adormecido, sem razão detectada, para nunca mais acordar.