"Na sacada aqui de casa, fiquei parado contemplando a cidade à noite. Há muito tempo não fazia isso: contemplar. Nossa visão torna-se veloz como os meios de comunicação, e o muito que vemos é pouco mais que o nada que sabemos. Perdemos o hábito de olhar, e ver já nos basta. Mas eu estava com calor e não tinha nada de urgente com que me ocupar. Por distração, fui acabar na sacada. À noite. Vultos distantes, luzes que hesitavam, sombras sobre a Terra. Aos poucos fui perdendo o sentido do aqui, numa espécie de vertigem, como estar solto no espaço, como ter desenterrado os pés do barro em que geralmente os mantemos. E, na medida em que desaparecia qualquer ligação com a proximidade, com o entorno que nos corporifica, mas que também nos aprisiona, nesta mesma medida o agora foi perdendo sua lógica.
Desligado, por fim, de minha condição de um ser envolvido pela concretude da existência, pareceu-me poder ouvir simultaneamente cada suspiro, cada gemido produzido no interior dos milhares de casas de que se compõe a cidade. Senti que havia um pulsar de vida em cada uma das janelas que se recortavam na escuridão, que ali, onde a vista percebia apenas pequena mancha de luz, existiam sonhos e planos e desilusões e frustrações, acertos e erros, maldade e bondade, que tudo junto é a massa de que somos formados.
Perguntei-me se aqueles habitantes da Terra já teriam pensado que são apenas estafetas efêmeros de um processo muito maior do que cada um de nós, que é a história da humanidade, uma história de milhares e milhares de anos, que nos antecedeu e que nos ultrapassará.
É difícil, muito difícil, parar para refletir sobre nossa pequenez, sobre a inutilidade de grande parte do que fazemos. Aceitamos a prisão do aqui e agora e ainda achamos, cada um de nós acha, que somos o centro do universo.
Preciso voltar muitas vezes à sacada, à noite, para contemplar a cidade."
