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14 de agosto de 2012


"Após uma viagem longa, após semanas ou meses, quando se chega, assim que se põe um pé fora do aeroporto, estranha-se as cores, estranha-se a espessura do ar, estranha-se que, de repente, toda a gente fale em português. Os taxistas falam em português, a rádio passa publicidade em português, os cartazes ao longo do caminho anunciam qualquer coisa em português. Mas, nos passeios, as pessoas avançam sem reparar em nada, fazem o seu caminho, seguem sem encontrar novidades. Nos semáforos, os motoristas dos outros carros estão mal-humorados, ignoram completamente o sol de junho, que não é demasiado quente, ignoram a claridade e a temperatura perfeita.

A casa está exactamente como ficou. Se houve uma última caneca que ficou por lavar no lava-loiças, continua lá, suspensa, pronta a retomar o movimento do mundo. Então, antes de desfazer a mala, apetece sentar no sofá, senti-lo. Nos próximos dias, haverá prazeres simples para apreciar: assistir a matinés de fim de semana na televisão, tomar duches quentes com champô de tamanho normal, comer certas comidas, não necessariamente bacalhau. Essa fase pode demorar bastante tempo. Se houver disponibilidade, pode demorar vários dias. A mala pode ficar por desfazer durante mais de uma semana.

Então, a casa é mesmo casa. O corpo recupera segurança, como se a segurança fosse gasolina, como se a casa fosse uma bomba de gasolina e como se tivéssemos um depósito interno para atestar de segurança. A casa é como aquele lugar em que não podíamos ser apanhados quando brincávamos à apanhada. A casa é como um abraço.

Esse período pode ser muito reconfortante e melancólico. Reconfortante porque todas as lembranças e cicatrizes assentam, são processadas pela memória, narradas a nós próprios devagarinho, encontram um lugar na organização da cabeça. Melancólico exactamente pelo mesmo motivo. Esse é um período em que se contempla um tempo que, ali, se sabe com muita certeza que não voltará. Saber que aquilo que foi bom existiu é, também, saber que já não existe.

Sem roaming, é possível telefonar aos amigos com especial facilidade. Quando atendem e quando têm conseguem encontrar uma hora nas suas agendas cheias, marca-se um encontro numa esplanada ou à frente de uma paisagem simpática. Cresce então o entusiasmo para lhes contar como foi nadar ou andar de bicicleta numa cidade tão distante, entre imagens tão incríveis, entre perfumes e fedores. Eles ouvem, dizem: ãh, ãh. Reparam em qualquer coisa que está à acontecer atrás de nós, uma criança, um cão, um pombo. E o entusiasmo vai esmorecendo. Quando morreu completamente e se misturou com a paisagem, são esses amigos que se entusiasmam a perguntar: sabes com quem é que o Manel anda? E começam a falar dos lugares onde se costuma ir. Todo o interesse que colocam nos detalhes dessa descrição contrasta com o desinteresse com que se ouve. E há uma voz interior, por baixo dessa, a ditar pensamentos e a anotar tudo isso. Nesse preciso momento, fica claro que mudámos enquanto pessoa. Foi a viagem que nos mudou."

7 de agosto de 2012

a bagagem do viajante

"Juntavam-se na praça ao domingo, chovesse ou fizesse sol. (...) Juntam-se na praça ao domingo pela manhã e ali ficam durante algumas horas. Falam baixinho, como quem não quer incomodar nem sequer as pedras."

a bagagem do viajante

"Vai o ano correndo manso entre noites e dias, entre nuvens e sol, e quando mal nos precatamos, chegámos ao fim, e é natal. (...) De mais sei eu que na enfiada de abraços há sempre os que apertam e os que são apertados. De mais sei eu que a confiança é, em muitos casos, a armadilha que a nós próprios armamos, e para ela é que os outros nos empurram, sorrindo."

a bagagem do viajante

"(...) É uma sensação agradável esta de ter o corpo um pouco áspero de sal, a antegozar o duche que nos espera em casa. (...) O momento é tão perfeito que podemos falar de coisas importantes sem que as vozes tenham de subir, e nenhum de nós pensa em ganhar no diálogo e ter mais razão do que a pode ter um comum ser humano que respeite a verdade. Além disso, é verão e, como eu disse, estamos na fronteira do ar livre. (...) Temos a pele doirada e sorrimos muito. (...) Voltamos a conversar, dizemos coisas vagas e lentas, inteligentes, numa plenitude de bem-aventurados. O sol, que desceu um pouco mais, desliza nos copos, acende fogos no vidro e dá ao vinho uma transparência de fonte viva. Sentimo-nos bem, com o restaurante só para nós, rodeados de madeiras fulvas e toalhas coloridas. (...)"

18 de julho de 2012

"Mesmo a tentarmos muito, não conseguimos prever tudo aquilo que aprenderemos de olhos fechados, só a sentir o sol. Agora, no primeiro dia, as férias parecem infinitas. É impossível imaginar o seu fim. Serão constituídas por tardes inteiras e cada uma dessas tardes sob esta claridade terá o tamanho de uma vida. Agora, mesmo a tentarmos muito, não conseguimos prever a quantidade de tempo que iremos passar ao lado de pessoas que são importantes para nós e de outras pessoas, ainda desconhecidas mas que, depois desse encontro, começarão também a ser importantes para nós."

26 de junho de 2012

um dia atrás do outro

"Do lado oposto, o sol a pique mostra onde está o norte e o sul, cobre a terra de sombras e espalha cores impossíveis. Uma paz absoluta também. Ninguém fala porque ninguém quer quebrar o silêncio nem dissolver a perfeição dos minutos que se sucedem. Lentos, leves, irreais.
(...)
- Vou ser feliz! - grita.
O grito dissolveu-se no ar, mas fica guardado no coração. Para sempre."

18 de maio de 2012

a bagagem do viajante

"Deixei a lagoa pelo meio da manhã, quando o sol limpara já todo o céu. Sobre a água, que as rápidas aragens mal agitavam, não tinham ficado vestígios da neblina cerrada que, no amanhecer, cobrira toda a superfície. Valera a pena acordar cedo e ver o nevoeiro rolar sobre a lagoa em flocos soltos, como se cuidadosamente o sol os varresse até nada mais ficar entre a água e o céu azul. Arrumei os petrechos, atirei-os para as costas, e, descalço, comecei a longuíssima caminhada pela praia fora, entre o bater das ondas e a panorâmica vagarosa das arribas vermelhas. A maré enchia, mas havia ainda extensas toalhas de areia molhada e dura, por onde era fácil caminhar. O sol estava quente."

"Tenho na lembrança uma outra janela, estreita, metida entre esconsos que mal me deixavam olhar a rua (sexto andar, água-furtada, perto do céu), donde, por todo o tempo que ali vivi, pouco mais podia ver que telhados e nuvens, mais um sol que fazia todos os dias o mesmo caminho e que deslocava, de um lado para o outro, até subir a parede e desaparecer, uma faixa de luz sobre o chão esfregado onde eu brincava"

17 de maio de 2012

um dia atrás do outro

"Ali onde o sol nasce silencioso, inundando o mundo de uma luz púrpura e líquida, onde o mar permanece adormecido, onde a manhã se anuncia em cada dia como se fosse a primeira e onde tudo é tão perfeito e luminoso, apetece ficar para sempre. Mudos e quietos como o mar àquela hora. Apetece demorar naquela ponta da ilha onde os pássaros cruzam o céu em voos secretos, apenas denunciados pelo barulho acelerado das asas quando mudam de rumo. Apetece pairar como eles e ver aquele lugar de cima, a pique, numa vertigem de azul infinito, numa ilusão de paz eterna. (...) Como se existisse outro mundo para além deste mundo, onde tudo parece delicado, primordial e puro. (...) Naquele lugar não existe passado nem futuro, apenas o instante presente, o momento demorado na contemplação da obra divina. (...) "

a bagagem do viajante

"(...) o sol prendera-me na praia, envolvera-me de torpor, e entre o banho e a areia se tinham escoado as horas. É uma sensação agradável esta de ter o corpo um pouco áspero de sal, a antegozar o duche que nos espera em casa. (...) Vida boa. O momento é tão perfeito que podemos falar de coisas importantes sem que as vozes tenham de subir, e nenhum de nós pensa em ganhar no diálogo e ter mais razão do que a pode ter um comum ser humano que respeite a verdade. Além disso, é verão e, como eu disse, estamos na fronteira do ar livre. A aragem faz estremecer umas plantas cheirosas a que podemos chegar com os dedos e em volta das quais zumbem os insectos do tempo. Quebrada pela folhagem, há uma réstia de sol que se derrama pelas madeiras envernizadas da janela. Vida boa. Temos a pele doirada e sorrimos muito. (...) Ah, vida boa, vida boa. (...) Voltamos a conversar, dizemos coisas vagas e lentas, inteligentes, numa plenitude de bem-aventurados. O sol, que desceu um pouco mais, desliza nos copos, acende fogos no vidro e dá ao vinho uma transparência de fonte viva. Sentimo-nos bem, com o restaurante só para nós, rodeados de madeiras fulvas e toalhas coloridas. (...)"

13 de maio de 2012

O relógio marcava a vigésima hora do dia, maio, horário de verão. O dia de trabalho acabava na cidade e a população activa desligava as máquinas cerebrais.  
Os homens libertavam-se dos apertados nós das gravatas, dirijam-se ao café e pediam uma cerveja fresca, procuravam o maço e tiravam um cigarro, recostavam-se na cadeira da esplanada e esticavam as pernas - pequenos prazeres da vida. As últimas horas do dia chegavam. O sol ainda se fazia sentir, iluminava a cidade com uma luz subtil e oferecia uma temperatura amena, suficiente para arregaçar as mangas até aos cotovelos. Depois de um dia de trabalho, de cansaço e de calor anormal nesta primavera de maio, perde-se a postura que se assume durante todo o dia, envergando fato e gravata. 
O dia torna-se, assim, fugaz e a noite chega. O silêncio torna-se rei e apenas é quebrado com o movimento rodoviário de quando em vez.

22 de abril de 2012

a bagagem do viajante

"Hoje, apesar do céu descoberto e do sol quente, não me sinto para festas. Há dias assim. E um homem não tem obrigação nenhuma de mostrar aqui um sorriso de boas-vindas quando sabe que ninguém está para chegar. Mais vale aceitar (ou assumir, como é inteligente dizer-se agora) as boas e as más horas do espírito, porque atrás de uma vêm outras, e nada está seguro, etc., etc."

14 de março de 2012

deixei-te o sorriso em casa

"Aparentemente.
Tudo quieto. Tudo pousado.
Calma boa.
É verdade que às vezes nos sentimos bem, assim mesmo bem, por motivos eventualmente inexplicáveis de tão pequenos, tanto que até chegamos a ter medo da sua insignificância. Um dia, serás apenas e só porque faz bom tempo pela manhã, outro porque o sol forte promete dar cabo das invernias, ou porque há uma qualquer noite onde a culpa é da lareira que nos vai amornando preguiças, cumplicidades. Para outros, os tais dos sonhos que nunca se cansam deles, nem eles se cansam de os sonhar, é a simples adivinhação de um jantar delicioso partilhado no final da delícia. Tudo isso, já se sabe, pode desenhar na cara da gente um sorriso, apalermado. Dizem que é o tal da felicidade. Há inclusivamente quem, na ocasião, arrisque um cantarolar infantil debruçado em ingenuidades de algibeira."

25 de julho de 2011

Eu gosto de ficar em casa, aproveitar o silêncio e meditar. Pensar e repensar nos caminhos por onde a vida gira. Vestir roupa larga e manter o cabelo desgrenhado, sem ver escova durante tempos. Apanhar algum sol durante o dia e contemplar uma noite estrelada. Ouvir uma música calma que evoque boas memórias e grandes sorrisos. Um cigarro aceso.
A saudade no peito e a minha fonte de inspiração fora da vista. Volta.

6 de novembro de 2010


O sol delicadamente tórrido deixou-me nostálgica. Relembrou-me os dias despreocupados de Verão. E nós veraneantes folgadas, sem relógio no pulso. De manhãs adormecidas, noites agitadas. De corpo despido e pele dourada. De excertos literários enunciados em voz alta. De cafés em esplanadas de cabelo ao vento. De abraços constantes.

1 de novembro de 2010

Os dias voltaram à sua duração efémera. O sol alcança o clímax sem que nós, espectadores fiéis desta vida, o possamos admirar como em dias de horas longas de correcta exposição, da última estação.
Agora, os dias apressam-se e nós corremos juntamente com os ponteiros que fazem diminuir a luz do dia, a cada tic-tac. Chegamos a casa, já o sol está pronto a fechar os olhos e a perder-se em sonhos. Pronto para nos dizer bom dia, já num outro dia.
Amarelo, laranja, vermelho e castanho. Uma escala de cores que pinta o chão dos nossos dias. Um Outono que nos chega ao nariz através do cheiro das castanhas que os senhores assam nas ruas da cidade. Um céu que acorda azul e adormece em tons menos quentes de lipton ice tea, cujo sabor ainda é desconhecido.
A cidade veste-se com mais roupa, mas ainda não esqueceu a última estação, ainda não esqueceu o Verão. Perdemo-nos nas reminiscências desse nosso Verão quando escutamos a banda sonora. E percebemos que não pertencemos a lugar nenhum para além deste Mundo cosmopolita em todas as estações do ano: às pessoas e ao urbano. O cenário pintado com todas as cores do arco-íris testemunha a nossa corrida desenfreada em direcção à próxima paragem. E a próxima união será sobre carris, a alta velocidade. Em alta definição.

7 de outubro de 2010

Escrevo do meu alpendre, onde a praia é o cenário de fundo. Ouço o mar que se desenrola ao chegar à praia, banha a areia e envia recordações dos veranistas. O astro central ainda manda lembranças ao espreitar, em lascas, entre a ténue névoa de Outubro, diz-nos que voltará mas chegou a hora do seu retrocesso. Gosto deste sítio pelo seu sossego. Estou sentada e vejo o dia chegar com toda a sua elegância. As manhãs começam a pedir mais um agasalho, mais um café para acordar. Mais um dia: muito obrigada. Todos dias, cada vez mais, trazem consigo o dom sobrenatural de me garantir que a vida que eu escolhi é, indubitavelmente, a melhor. Eu vivo a sua brandura todos os dias e adoro.
Bom dia, meu amor!
Por trás de mim, fez-se ouvir a voz que me faz adorar esta vida. É Ele.

1 de agosto de 2010

Areal melancólico,

Agora restam melodias que me remetem aos locais que pisamos onde o sol se fazia sentir em todo o nosso corpo, restam aromas que sinto e que o meu olfacto diz que te pertencem. Resta também o álbum dos nossos momentos preso na minha mente, a tua presença amarrada ao meu coração, o que faz com que estejas presente em cada pulsação.
A nossa história ninguém há-de conhecer por completo. Ainda estão patentes emoções e sentimentos que nem nós, na nossa mais profunda candura, havemos de saber decifrar.
Resta-nos contar os dias que nem nós sabemos quantos são até ao dia onde sentirei a tua respiração vir contra o meu rosto. Na minha mente tenho a imagem do nosso último abraço, a última vez que senti o cheiro do teu cabelo e vi o tom da tua pele dourada, resultado de longas horas que passamos juntas a ouvir o som do rebentar das ondas à beira-mar. Aquela areia será sempre uma areia inexplorada onde desenharemos os nossos próprios pés.